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Há mais de 50 anos, o economista Herbert Simon, ganhador do prêmio Nobel de Economia, previu que teríamos problemas para lidar com o excesso de informação no futuro.
Uma abundância de informação gera uma pobreza de atenção.
E acertou em cheio.
Não foi por acaso que, na mesma época, o bibliotecário Paul Zurkowski sintetizou em duas palavras sua visão revolucionária sobre como nossa relação com a informação transforma nossa vida: information literacy, ou letramento informacional — que aqui chamaremos carinhosamente de LI.
LI, uma necessidade pessoal
Quando Zurkowski defendeu a urgência de educação na capacidade de lidar com informação, ele não estava falando de desinformação. Nem poderia. Este conceito sequer existia como o conhecemos. Na década de 1970, seu foco era a vida cotidiana: tomar decisões melhores, trabalhar de forma mais eficaz, aprender continuamente. A proposta era ensinar as pessoas a:
- Reconhecer que precisam de informação;
- Saber onde e como buscá-la;
- Avaliar sua qualidade;
- Aplicá-la na prática.
Essa competência permitiria, segundo ele, que mais pessoas aprendessem a aprender, uma habilidade essencial em um mundo em constante transformação.
Com o tempo, o conceito de letramento informacional foi ganhando novos contornos. No século XXI, com o crescimento da desinformação digital, ele passou a ser cada vez mais associado à defesa cognitiva.
Escolas, instituições e governos passaram a promovê-lo como ferramenta para reconhecer notícias falsas e perceber a manipulação algorítmica em redes sociais.
Hoje, o interesse ao LI cresce com o combate às fake news, mas seu propósito é muito mais amplo do que isso: o LI guia escolhas pessoais e coletivas, baseando-as em análise, comparação, contexto e propósito.
Como competência, o LI é essencial para se tomar decisões fundamentadas, reduzir ruídos mentais e até mesmo para conservar energia cognitiva diante do excesso de estímulos.
Alguns exemplos de como o letramento informacional pode impactar o dia a dia e transformar a vida das pessoas:
- Estudantes que aprendem a complementar seu material de estudo;
- Consumidores que aprendem a identificar produtos e promoções enganosos no mercado;
- Idosos que aprendem a obter informações sobre aposentadoria e benefícios sociais;
- Profissionais que aprendem a perceber e a comunicar melhor o que dizem os dados de seus relatórios;
- Cidadãos que aprendem a pesquisar cláusulas em contratos, questionar diagnósticos ou avaliar políticas públicas.
Os exemplos acima não viram memes, nem geram likes, mas transformam rotinas, ampliam repertórios e criam autonomia de pensamento. Afinal, o poder da informação não está em sua existência, mas em sua aplicação.
Na nossa vivência diária, o letramento informacional é, antes de tudo, a base que nos capacita a controlar, sistematizar e utilizar de forma cada vez mais eficaz o que permitimos que entre na nossa mente. É um pilar fundamental para quem quer sair do modo reativo e assumir o comando crítico do próprio pensamento — e de sua atenção.
LI, uma necessidade social
Quanto melhor você lida com informação, também impacta positivamente situações ao seu redor, consciente e inconscientemente, direta e indiretamente, o que reverbera por toda a sociedade.
Tudo o que compartilhamos ecoa online, determinando os assuntos e abordagens mais insistentes entre todos os estímulos informacionais que disputam a nossa atenção.
Não é irônico que, apesar de termos acesso a um volume indescritível de informação, estamos diariamente sob a mira dos mesmos temas, posicionamentos, personagens e crenças?
É preciso consciência e iniciativa para furar a bolha dos algoritmos e buscar novos horizontes no seu universo informacional.
Pensadores da época de Simon e Zurkowski não poderiam imaginar o abismo entre a quantidade e a qualidade das informações na nossa maior biblioteca, que é a Internet.
E, ainda assim, é o LI o que nos oferece esperança (e arsenal!) contra imprecisões e desinformação, que se alastram entre nossos dispositivos digitais com o potencial de prejudicar direta e rapidamente toda a sociedade.
Sabe aquele seu momento impulsivo de forte indignação?
Pois é.
Muitos estímulos são projetados para explorar justamente este ponto fraco: a pressa em reagir.
A desinformação não é acidente. É estratégia.
E sempre que você repassa informações sem verificar, corre o risco de compartilhar conteúdo falso e de ter não apenas seu discernimento, mas sua responsabilidade julgados por aqueles que identificam a falsidade, ou seja, aqueles que estão melhor letrados em informação do que você.
Sua mente gosta de atalhos
Certos tipos de informação abrem o apetite e baixam a guarda da sua cognição. Alguns estímulos muito explorados no universo da desinformação são:
- Confirmações do que você já acredita;
- Cenas revoltantes;
- Notícias alarmantes;
- Novidades supostamente ditas por alguém que você admira.
Em casos como estes, seu sistema de verificação interna simplesmente desliga.
Cabe a você religá-lo.
O custo de não verificar informação, seja qual for seu tipo e origem: online ou presencial, lida ou ouvida, pessoal ou pública.
Quando repetimos imprecisões e inverdades, não somos apenas vítimas — tornamo-nos vetores. Cada repetição irrefletida de uma ideia, seja na internet, seja interagindo presencialmente no dia a dia, tem o poder de afetar decisões em diversas esferas, como saúde, política, finanças e relacionamentos.
É muito fácil atravessar a linha entre estar desinformado e desinformar.
E o que você ganha ao verificar antes de repetir?
Tempo para avaliar se vale a pena espalhar uma ideia e, se ela não for verdadeira, deixa de perder o tempo que usaria para desmenti-la.
Inteligência contra manipulação, uma habilidade treinável.
Credibilidade quando as pessoas entendem que você é criterioso com as informações que consome (o que também se reflete na forma como você fundamenta suas opiniões).
Influência: suas posições ganham peso referencial quando vistas com credibilidade.
Poder de decisão: quanto mais nítidos os fundamentos das informações que norteiam suas escolhas, mais ágeis e melhores são as suas tomadas de decisão.
A verificação de informação é uma postura estratégica que afeta todas as áreas da sua vida e representa a defesa da sua liberdade de pensamento.
LI na prática
Não existe um método universal para ensinar letramento informacional, mas há estratégias e frameworks consolidados que ajudam a estruturar esse processo de forma prática e adaptável a diferentes idades e contextos.
Dois métodos consagrados são o TheBig6, de Eisenberg & Berkowitz, voltado para o LI de forma abrangente, e o SIFT, de Caulfield, focado no combate a desinformação online.
Confira nosso guia rápido com questionamentos sugeridos para cada etapa destes dois métodos.
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