Porque conversar com a IA é (também) conversar com você mesmo

Porque conversar com a IA é (também) conversar com você mesmo

Formular boas perguntas, ou melhor, instruções para a IA é um exercício de reflexão, organização mental e comunicação.


Entender isso é o que determina a qualidade das respostas no chat com a IA.


E se pensar bem neste processo, você verá ainda que conversar com o ChatGPT e seus amigos é, em grande parte…


…conversar com você mesmo.


A interação com a IA é também um processo metacognitivo: você precisa compreender o que já sabe, o que deseja saber, antecipar lacunas e armadilhas (incluindo alucinações da IA) e como articular isso de forma eficaz.


A “engenharia de prompts” (habilidade de formular interações eficazes com inteligências artificiais) representa uma nova forma de exercitar a metacognição, impactando a sua habilidade de planejamento e controle da atenção. E essas competências não se limitam ao contexto digital. Elas transcendem o uso de tecnologias e afetam diretamente todas as áreas da sua vida, incluindo o autoconhecimento, suas tomadas de decisão e sua produtividade.


Afinal, estamos atravessando tempos desafiadores para o pensamento crítico, a regulação atencional e o planejamento estratégico. E essas competências são cruciais não só para o seu desenvolvimento pessoal, mas também para o nosso desenvolvimento enquanto sociedade: negligenciadas, não são elas que direcionam, por exemplo, quais assuntos, abordagens e informações viralizam e determinam no que a sociedade foca.


Metacognição


O simples ato de revisar um prompt ineficaz e reestruturá-lo com mais precisão já é, por si só, um exercício de pensamento metacognitivo.


Formular um bom prompt ativa a capacidade de refletir sobre os próprios pensamentos: você precisa saber o que sabe sobre o tema (e ter ideia do que não sabe) para poder avaliar as respostas da IA e formular novas solicitações à medida que recebe feedback.


Essa reflexão contínua sobre o próprio raciocínio estimula a autorregulação cognitiva (controlar seus próprios processos mentais, como a atenção e a memória, para se adaptar à situação e alcançar metas), um dos pilares da aprendizagem autônoma e eficaz.


Planejamento estratégico e controle atencional


Elaborar prompts eficazes também beneficia competências de planejamento e controle da atenção.


Definir objetivos, organizar ideias e filtrar informações irrelevantes são etapas clássicas de um processo de planejamento estratégico, utilizado em projetos profissionais e acadêmicos.


E como você precisa manter o foco na conversa, resistindo a desvios e escolhendo o que aprofundar ou deixar de lado, seu controle atencional é alavancado no processo. E isso não é nada trivial, especialmente diante de respostas que podem trazer distrações, imprecisões, invenções e erros.


Novas competências


Saber interagir com IA não é mais apenas uma habilidade técnica, mas uma das novas competências imprescindíveis para qualquer profissional ou estudante.


Essa perspectiva é sustentada por estudos sobre o papel da IA na educação. Para Holmes et al. (2022), a interação produtiva com sistemas inteligentes pode ser vista como um catalisador para competências cognitivas mais amplas.


Quando utilizada de forma consciente, a IA pode estimular o aprendizado ao incentivar práticas metacognitivas eficazes.


Cognição, linguagem e atenção no século XXI: prompts como exercício metacognitivo


Se conversar com a IA pode ser visto como um exercício de escuta interna, a engenharia de prompts se torna um espelho cognitivo de não apenas o que se busca, mas de como se pensa.

Integrar essa prática ao cotidiano, seja na educação, no trabalho ou na vida pessoal, representa um novo meio para desenvolver essa capacidade tão humana que é a de pensar sobre o próprio pensamento.


Referências

HOLMES, Wayne et al. Ethics and risks of artificial intelligence in education. Nature Machine Intelligence, v. 4, p. 5–7, 2022.

LUCKIN, Rose et al. Intelligence unleashed: An argument for AI in education. Pearson Education, 2016.

POSNER, Michael I.; ROTHBART, Mary K. Research on attention networks as a model for the integration of psychological science. Annual Review of Psychology, v. 58, p. 1–23, 2007.

SCHRAW, Gregory; MOSHMAN, David. Metacognitive theories. Educational Psychology Review, v. 7, n. 4, p. 351–371, 1995.

ZIMMERMAN, Barry J. Attaining self-regulation: A social cognitive perspective. In: BOEKAERTS, Monique; PINTRICH, Paul R.; ZEIDNER, Moshe (org.). Handbook of Self-Regulation. San Diego: Academic Press, 2000. p. 13–39.

 

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