Aprender o que e por que?
Muitas vezes, uma dificuldade no estudo não está em falta de disciplina ou tempo, mas em como o conteúdo se apresenta: tópicos e capítulos que não se encadeiam de forma que faça sentido para o estudante.
Mudança de eixo
Para abordar esta perspectiva, propomos aqui uma reflexão: em vez de começar o estudo pela sequência do conteúdo, começar pela necessidade.
Em vez de focar no acúmulo de informação, focar na estrutura do conhecimento que se quer construir.
Comece com uma necessidade, não com tópicos
Estruturar permite priorizar. E priorizar permite personalizar.
Antes de aprender qualquer coisa, é preciso saber por que aprender. Uma necessidade é o que prepara a mente para buscar informação. E quanto mais clara é a necessidade, mais fácil é organizar e reter o que se aprende.
Se você lê o capítulo 1, mas seu cérebro não se importa com o capítulo 1, ao ler o capítulo 2, o capítulo 1 já foi esquecido.
Quando uma leitura não se justifica, a informação tende a passar despercebida. Ela entra, mas não encontra motivo para ficar. É como colocar dados em um baú sem fundo: você abre a tampa, joga conteúdo lá dentro, fecha a tampa e a informação cai no esquecimento. Aprender não é seguir ordem, é construir sentido.
Afinal, seu cérebro se importa mesmo é com problemas.
Problemas são a engrenagem do aprendizado
Antes de ler os capítulos de um livro, entenda do que se trata cada um e defina motivos para lê-los. Se não encontrar um motivo, crie.
Pergunte-se: o que isso agrega ao meu conhecimento sobre este assunto?
Invente gargalos. Formule perguntas. Estabeleça desafios.
Aprender começa quando algo precisa ser resolvido e talvez você prefira ler o capítulo 5 antes do capítulo 1 para mudar perspectivas e ligar informações de formas diferentes.
Sem problemas, o cérebro não tem razão para guardar informação.
E ele é eficaz em descartar o que não lhe parece útil.
Absorva apenas o necessário, depois reformule e aplique
Este processo se baseia em uma liberdade exploratória que precisa ser direcionada para que não se perca o foco. Defina parâmetros para o que você busca.
Se o objetivo é entender as proporções entre os planetas do sistema solar, foque estes dados apenas. Não se empenhe em outros detalhes. Use seu tempo e energia para conferir números com atenção em duas ou três fontes confiáveis e logo em seguida fazer uma busca por imagens que representem estas proporções.
Com apenas os números relativos às proporções em mente, fica mais fácil comparar imagens que representem melhor ou pior as proporções de tamanho entre os planetas.
Esta comparação já é uma forma de fixar conhecimento, porque já é um problema para o seu cérebro resolver.
O esforço cognitivo deve estar alinhado ao objetivo, não ao excesso de detalhe.
Conhecimento reutilizável
Quando um problema é resolvido, o conhecimento se reorganiza. Ele se torna mais denso, aplicável e baseado em princípios.
Por exemplo: associar as proporções de tamanho entre os planetas a frutas.
Júpiter com uma melancia. Mercúrio com uma uva.
Esse exercício envolve identificação de padrões, associação e imaginação. Já é outro problema a ser resolvido: qual fruta corresponde a qual planeta?
E mais problemas dão ao cérebro mais motivos para guardar estas informações.
Ou melhor, estrutura. Porque, neste ponto, já podemos falar em como uma informação se tornou parte de uma estrutura de conhecimento.
Depois de comparar números e associar planetas a frutas, o cérebro passa a usar estas informações como princípios em outros contextos. Quanto mais recente o uso da estrutura, mais irresistível é para a sua mente aplicar a estrutura a novos grupos de itens.
Se na semana passada você buscou associar frutas a planetas, ao entrar em uma loja de doces, um bolo pode lembrar Júpiter e uma balinha pode lembrar Mercúrio. E a estrutura é reforçada mais uma vez.
Isso não é memorização de fatos. É construção de uma rede de padrões em que diferentes círculos são mentalmente preenchidos por diferentes itens de uma categoria de entes circulares.
Seu cérebro criou estruturas mentais que se fortalecerão por associação, pelo menos enquanto seu olhar for atraído por grupos de itens circulares, uma tendência que deve se concentrar no momento da sua vida em que o estudo dos planetas é importante.
Depois, quando outros assuntos se tornarem mais importantes do que os planetas, esta estrutura será menos acionada.
Ela tende a dar lugar a novas estruturas, mais relevantes para novos estudos e momentos de vida.
Codificação e recuperação
Codificação acontece quando você sintetiza.
Você consome informação e extrai um princípio geral.
Não armazena detalhes soltos: você cria conexões.
Recuperação acontece quando você reutiliza o conhecimento sem consultar fontes externas, resolvendo problemas reais, em tempo real.
Conhecimento que se acumula é o conhecimento que entra em ação. E a cada uso, mais forte fica o conhecimento.
Um ciclo simples de aprendizagem
1 — Resuma uma informação com suas palavras.
Exemplo:
Após ler um parágrafo que explica que os planetas não têm o mesmo tamanho, dizer ou escrever algo como:
"Os planetas do nosso sistema solar têm diferentes tamanhos".
2 — Identifique ou crie um problema para esta informação.
Exemplo:
Como saber quais são as diferentes proporções entre eles?
3 — Busque soluções através de padrões. Ignore detalhes redundantes.
Exemplo:
Se fossem frutas, Júpiter seria mais ou menos como uma melancia enquanto Mercúrio seria mais ou menos como uma uva.
4 — Construa mentalmente uma estrutura com estes padrões.
Exemplo: Júpiter é o maior círculo e Mercúrio é o menor.
5 — Use imediatamente esta estrutura, mesmo sem precisão.
Exemplo:
Associar na hora cada planeta a uma fruta, baseando-se na percepção geral dos diâmetros das frutas, mesmo que de forma imprecisa.
6 — Observe, ajuste, tente novamente.
Refletir sobre a adequação de cada associação. Redefinir associações se outras frutas parecerem mais adequadas.
É pela elaboração e pelo uso contínuo de estruturas que o aprendizado se consolida.
Se esse modo de pensar a aprendizagem faz sentido para você, vale observar como você estuda, planeja ou consome informação no dia a dia. Que problemas estão orientando sua atenção? Que estruturas você já construiu e quais ainda estão ausentes?
1 comment
Isso faz muito sentido para mim